Ela chegou onde poucos chegam: o que o currículo não mostra sobre a trajetória de Rachel Maia
- shecorpco
- há 1 dia
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Primeira mulher negra a assumir o cargo de CEO no Brasil, e fez isso três vezes. Em conversa com a SheCorp, Rachel Maia fala sobre disciplina, alianças estratégicas, o preço de ocupar espaços que não foram feitos para você e o que realmente separa quem chega de quem fica pelo caminho.
Rachel Maia nasceu em 1971 na Cidade Dutra, Zona Sul de São Paulo. Foi a caçula de sete filhos em uma família de onze pessoas. Pagou as mensalidades do colégio técnico de contabilidade com o salário do primeiro estágio, juntou dinheiro para estudar inglês no Canadá e voltou ao Brasil decidida a ocupar espaços que não foram desenhados para ela.
Ela conseguiu. Não uma vez, mas três: foi a primeira mulher negra a assumir o cargo de CEO no Brasil, à frente da Tiffany & Co., da Pandora e da Lacoste. Hoje atua como conselheira na Vale, Petrobrás e Hypera, e fundou em 2018 o Instituto Capacita-me, voltado para educação e empregabilidade de pessoas em situação de vulnerabilidade.
Em conversa com a SheCorp, ela conta como foi esse caminho, e o que ainda precisa mudar no mundo corporativo brasileiro.
Os três momentos que definiram a trajetória
Quando perguntamos quais foram os momentos mais definidores da sua história, Rachel não responde com uma lista de conquistas. Ela fala de formação.
O primeiro foi a própria base: crescer na periferia. “A minha base na periferia foi o meu primeiro laboratório de Business Intelligence. Ali, forjei a compreensão de que o resultado é a única métrica inegociável”, ela diz. O trabalho precoce não foi só sobrevivência, foi o começo de uma disciplina operacional que ela levaria para todas as multinacionais que viria a liderar.
O segundo foi a ascensão executiva em si, mas com uma camada que vai além do cargo. “Eu não estava apenas operando P&L. Eu estava redefinindo o equity da liderança feminina e negra no topo da pirâmide corporativa.” E nesse processo, a maternidade, vivida em plena ascensão, se tornou o que ela chama de “seu maior case de gestão de ativos intangíveis”. Um aliado estratégico fez a diferença: “A liderança não é um ato isolado, mas uma construção.”
O terceiro foi a transição para os conselhos de administração, onde atua há mais de doze anos. “Nesse patamar de decisão, compreendi que o impacto real transcende a performance imediata; ele reside na robustez das estruturas de governança que implementamos.”
O teto de vidro: invisível, mas real
Rachel não nega que o teto de vidro existe no Brasil. Ela o descreve como uma barreira invisível, “alimentada por preconceitos ocultos e pela falta de perfil com fenótipo negro como o meu nos espaços de decisão.”
A forma como ela lidou com isso foi direta: entregando sempre mais do que o esperado. “Aprendi cedo que não bastava ser competente; era preciso ser impecável para não ser invisibilizada.” Mas ela é cuidadosa ao fazer esse ponto: não como um conselho de resiliência e silêncio, mas como uma constatação dura de um sistema que cobra mais de quem já carrega mais.
“Ocupar esses espaços não é um pedido de licença, mas uma afirmação da minha excelência profissional.”
Onde as empresas ainda estão falhando
Sobre diversidade, Rachel é direta: o discurso avançou, a prática não acompanhou. “A falha mais dolorosa é a ausência de compromissos reais, com metas que afetam o bolso da alta liderança. Quando a inclusão não faz parte dos indicadores de desempenho, ela se torna opcional.”
E o que é opcional no mundo corporativo, ela lembra, acaba sendo esquecido na primeira pressão por resultado.
Outro ponto sensível: a permanência. Contratar é apenas o primeiro passo. “O desafio real é garantir que essas pessoas tenham voz e poder de decisão. Sem uma estrutura que proteja essa voz, a diversidade vira apenas um número frio em um relatório anual.”
O que realmente faz diferença na prática
Quando pedimos conselhos concretos para mulheres que querem chegar à alta liderança, Rachel fala de quatro pilares que a sustentaram: fé, família, capacitação técnica e a coragem de ser quem é em espaços que não foram feitos para o seu perfil.
Dois conselhos que ela deixa com clareza:
“Respeite quem veio antes de você e nunca pare de aprender. O conhecimento passado entre gerações e sua capacitação são patrimônios intangíveis que ninguém pode tirar de você.”
“Resultados individuais abrem caminho, mas é o coletivo que sustenta a escalada. Nenhuma jornada relevante se constrói sozinha.”
E o aprendizado mais profundo? Vencer a luta interna contra a sensação de não pertencer. “Eu precisei me acolher primeiro para depois conquistar o mundo. Se a porta não se abrir, não tenha medo de construir sua própria entrada.”
Ao fim da conversa, fica uma sensação: Rachel Maia não fala sobre o futuro como promessa. Fala como quem já sabe o que vem, porque foi ela quem decidiu.
A entrevista completa com Rachel Maia está na Edição 001 da SheCorp Magazine. Acesse em www.shecorp.com.br/revista



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